terça-feira, agosto 19, 2008

Trombiculose - Trombicula autumnalis



Que parasita é este?


É muito provável, se for veterinário, que após a realização de uma raspagem de pele de uma lesão ligeiramente crostosa e de cor alaranjada ( parece polén), próximo da raiz do pêlo do animal ou - em situações mais avançadas - em vesiculas, que se tenha deparado com este parasita e não se recorde do seu nome.

Este parasita dá-se pelo nome de Trombicula autumnalis e é um parasita que passa a maior parte da sua vida como parasita das plantas e outros artropodes, havendo uma fase da sua vida ( fase larvar) em que alimenta do plasma de animais. A infestação ocorre quando o animal passa num chão contendo ovos de Trombicula e estes sobem para o pêlo e pele do animal. Esta é uma doença sazonal cuja maior prevalência ocorre no final do Verão e princípio do Outono , em climas temperados , ou ao longo do ano se for uma região quente.


Quais os sinais da Trombiculose?



A Trombicula autumnalis provoca grande comichão, piodermatites autotraumáticas, formação de vesículas, pápulas e eritema sobretudo nas zonas de contacto com o chão: membros, patas, cabeça, orelhas, região abdominal e inguinal. Há animais que desenvolvem letargia, anorexia e vómito devido à irritação cutânea que sofrem, bem como este parasita pode provocar depressão do sistema imunológico.


Como se diagnostica a Trombiculose?


Para o seu diagnóstico basta uma raspagem de pele e observação ao microscópio para diferenciar este parasita dos ácaros ou até das carraças chumbinho (ninfas). É extremamente fácil: a Trombicula autumnalis tem só 3 pares de patas enquanto que os ácaros e as carraças têm 4 pares de patas.

Ácaro responsável pela sarna sarcóptica - Sarcoptes scabei - repare nos 4 pares de patas



Carraça - Rhipincephalus sanguineus




Ácaro responsável pela sarna demodécica - Demodex canis, cuja forma do corpo já de si é diferenciadora


Ácaro responsável pelas otites parasitárias - Otodectes sp.



2 exemplares de Trombicula autumnalis


O exame macroscópio de formas arrendondadas laranja brilhantes junto à raiz do pêlo, fazendo lembrar polén, revela a um olho experiente a existência deste parasita, no entanto aconselho sempre a sua identificação ao microscópio.


Qual o tratamento para a trombiculose?

O tratamento para a trombiculose é o banho com peróxido de benzoílo, óptimo para todos os casos de ectoparasitismo e a aplicação de ampolas ou spray que igualmente são utilizados na prevenção de pulgas e carraças ( ter atenção de respeitar o intervalo entre o banho e a aplicação da ampola!) - como é o caso fipronil ( spray ou spot-on) ou permetrinas.

Quando existe já piodermatite, aconselho o uso concomitante de antibiótico, anti-histamínicos e pomadas hidratantes. Por vezes o uso de colar isabelino é importante para evitar o auto-traumatismo. O uso de anti-inflamatórios à base de cortisona deve ser feito com bom senso, já que a Trombicula autunmalis provoca imunodepressão e deve ser dado em períodos de 2-3 dias no máximo.

Se o meu animal de estimação tiver trombiculose pode passá-la a mim ou ao meu outro animal de estimação?

A doença é autolimitante, ou seja, não afecta os outros cães nem as pessoas, só o próprio animal, como no caso da demodecose.

No entanto recomendo a lavagem da cama ou colcha onde o animal dorme e desinfecção, bem como a implementação de medidas higiénicas normais da rotina diária do seu animal.

Caso Clínico 20/08 - Erosão da córnea por pragana


Esta é a Debbie uma Fox Terrier de pêlo cerdoso que se apresentou à consulta com blerarospasmo, conjuntivite muito intensa e corrimento ocular purulento. Na consulta foi lavado o olho com soro fisiológico e detectou-se uma pragana espetada na conjuntiva.

A Debbie foi sedada para se proceder à extracção o mais atraumática possível da pragana.

Fez-se o teste da fluoresceína que deu positivo, verificando-se erosão da córnea provocada pelo contacto com a pragana.

A Debbie foi com colar isabelino e medicada com antibiótico, anti-inflamatório não esteroide e n-acetilcesteína que ajuda na regeneração da córnea.

Caso Clínico 18/08 - Sarcoma de Sticker numa cadela (II)



Esta é a Princesa na 3ª semana de tratamento, como se vê o tumor praticamente desapareceu, só falta mais uma sessão e a Princesa acaba a quimioterapia.

Caso Clínico 17/08 - Proptose do olho (II)

Lembram-se da Mimi, que teve proptose do olho? Ela voltou à clínica para mostrar o seu progresso.




Estas fotos foram tiradas 1 semana após o início do tratamento



Hoje quando tirámos os pontos



Hoje, já foi para casa sem pontos, mas continua com colar, pomada e gotas no olho. Teve uma boa evolução já que mexe muito bem o olho parece não ter sofrido lesão a nível dos ligamentos.

Caso Clínico 10/08 - Amputação de extremidade do membro (XII)


19/08/2008

Caso Clínico 19/08 - Piómetra fechada numa cadela após injecção abortiva

Apresentou-se à consulta uma cadela de raça indeterminada com peso corporal de 13 kg, de seu nome Fofinha, com história de à cerca de 3 semanas ter levado uma injecção abortiva depois de um encontro casual com outro cão. A dona foi alertada para todos os riscos que daí podiam advir e se detectasse algo suspeito ( corrimentos vaginais anormais, vómito, prostação e anorexia) para voltar à clínica.

A dona contactou-me telefonicamente a dizer que ela andava muito tristonha e que fazia o xixi normal seguido por várias tentativas de urinar, no entanto urinava às pinguinhas uma urina mais espessa muito mal cheirosa e lambia muito a vulvinha. Recomendei vir à consulta para ser observada.

No exame físico a temperatura rectal estava normal apesar de estar no limite máximo 39,1ºC, rosada, sem corrimentos vaginais aparentes e à palpação abdominal detectou-se a presença de uma massa em forma cilindrica. Após esta detecção realizámos uma ecografia, que nos confirmou a presença de piómetra fechada com marcação de cirurgia de urgência.

O útero cheio de conteúdo muito irregular, confirmando a suspeita.


Realizou-se uma OVH


Ruptura da parede uterina para se ver o seu conteúdo, suspeito que o xixi às pingas mais espesso fosse o primeiro sinal de infecção uterina, que a dona de início associava a uma infecção urinária.


As piómetras fechadas são muito mais dificeís de diagnosticar comparada com as piómetras abertas em que há um verdadeiro corrimento vaginal. As piómetras fechadas têm normalmente sinais muito inespecíficos - quebra no estado geral - e pouco patognómicos. Este é um exemplo que uma boa história clínica e um bom registo clínico do animal poderá fazer a diferença.

A Fofinha foi para casa com antibiótico, anti-inflamatório, colar isabelino e betadine tópico na sutura.

sexta-feira, agosto 15, 2008

Dirofilariose - o verme do coração



O que é a dirofilariose?

A dirofilariose é uma doença parasitária provocada por um parasita de seu nome Dirofilaria immitis, que é transmitida pela picada do mosquito. É uma doença inflamatória ao nível do coração e da vasculatura pulmonar.

Qual o ciclo de vida da Dirofilaria immitis?

Os mosquitos infectam-se ao ingerirem sangue de cães afectados com dirofilariose, através da ingestão das microfilárias ( formas juvenis da dirofilaria ). Dentro do mosquito as microfilárias vão sofrendo transformações sucessivas até ao seu estado infectante, indo-se depositar nas glândulas salivares do mosquito. Este mosquito ao picar um novo animal vai libertar esta forma infectante no sangue deste novo animal. Estas larvas vão fazer uma migração no organismo do animal, até atingirem o seu local de maturação onde atingem a estado de adulto: no ventriculo direito do coração e artéria pulmonar. Quando em adultos se encontram dirofilarias machos e fêmeas eles reproduzem-se, dando origem as microfilárias circulantes que aguardam, na circulação sanguínea, ser sugadas por um mosquito para reiniciar o seu ciclo de vida.

Quais são os sinais de dirofilariose?

Os sinais são muito variáveis, de modo que, em veterinária, classificamos a doença em classes de acordo com a severidade da sintomatologia.

Classe I - Doença sub-clínica


- teste positivo à dirofilariose;
- sem sinais clínicos evidentes;
- exame físico normal;
- Rx torácico sem alterações;
- testes laboratoriais normais.


Classe II - Doença moderada

- teste positivo à dirofilariose;
- intolerância moderada ao exercício e/ou tosse ocasional;
- boa a suficiente condição geral;
- Rx torácico com alterações moderadas ao nível do ventrículo direito e artéria pulmonar , com consequente aumento do tamanho dos mesmos;
- Possibilidade de ocorrência de anemia moderada, eosinofilia.


Classe III - Doença severa

- teste positivo à dirofilariose;
- sinais clínicos evidentes: intolerância significativa ao exercício, stresse respiratório, tosse persistente, ascite ( acumulação de líquidos na cavidade abdominal por insuficiência cardíaca direita e consequente congestão hepática); anorexia e perda de peso;
- estado geral mau a moderado, aumento dos sons respiratórios, reflexo da tosse facilmente provocado, distensão da veia jugular, aumento do tempo de repleção capilar e mucosas pálidas;
- Rx: aumento bem visível do ventrículo e átrio direito, alargamento das artérias pulmonares, evidência de trombo-embolismo pulmonar;
- valores elevados de ureia, creatinina e das enzimas hepáticas.


Como se faz o diagnóstico da Dirofilariose?

Numa fase inicial só através de um teste sanguíneo é que podemos saber se o seu cão tem dirofilariose. Existem vários testes, como os testes rápidos que em 10 minutos dão um resultado, como também podemos fazer esfregaços de sangue e o teste da gota a fresco, no entanto estes 2 últimos temos de ter em atenção à distinção entre microfilárias propriamente ditas e dipetalonema que são muito similares. Se estes últimos testes forem positivos dever-se-à realizar um teste para distinguir se são microfilárias ou dipetolenema, pois o tratamento e prognóstico são totalmente diferentes.


Microfilária
Distinção entre microfilária e dipetalonema

Qual o tratamento para a Dirofilariose?

O tratamento vai depender em muito dos sintomas apresentados, normalmente os cães que se enquadram na Classe I e na Classe II devem ser tratado com adulticida - melarsomina HCL - com a administração de 2 injecções com 1dia de intervalo. Poder-se-à associar ao tratamento medicação própria para o coração como benazepril ou digitálicos para melhorarem a condição cardíaca do animal, bem como de medicação anti-trombos para os animais com suspeita de trombo-embolismo. Também poderão ser administrados protectores hepáticos e renais, anti-anémicos, bem como alterar a alimentação para uma ração baixa em sódio. No final do tratamento adulticida inicia-se o tratamento microfilaricida com a administração de ivermectina, sendo o animal nesse dia internado na clínica para observação e prevenção do choque anafilático.


Na Classe III a resolução deste problema passa pela intervenção cirúrgica para a remoção das dirofilárias adultos do coração e das artérias pulmonares.

Como posso prevenir a Dirofilariose?


Existem 2 formas. A mais segura é a administração mensal de milbemicina oxima, o que aconselho vivamente em zonas endémicas. A outra forma é a ivermectina oral mensal, no entanto para a administração desta deverá fazer o teste da dirofilariose antes da sua administração pois poderão ocorrer situações de trombo-embolismo no caso de ser positivo e ter dirofilárias adultas.

O desenvolvimento completo das dirofilárias ocorre em seis meses, portanto considero ser importante a realização do teste pelo seu cão só a partir dos 6 meses de idade, até lá aconselho a aplicação mensal de uma ampola repelente de insectos , como o Pulvex ® ou a Advantix ® ou a colocação de uma coleira repelente de insectos como a Scalibor ®.