sábado, agosto 30, 2008

Gatos e gravidez - Incompatíveis?




Quando uma mulher engravida ou está a pensar em ficar grávida, o seu médico assistente propõe-lhe uma bateria de análises para averiguar o seu estado de saúde. A detecção precoce de alguma alteração é possível em tempo útil tomar medidas preventivas ou tratamento adequado para o estado da mulher.

Um dos exames que as grávidas são submetidas é a titulação de anticorpos Anti-toxoplasma. Se o teste é positivo, significa que a mulher, em algum momento da sua vida, contactou com o agente da Toxoplasmose. O drama vem quando o teste é negativo e a mulher é dona de gatos.



Mas afinal o que é a Toxoplasmose?


A toxoplasmose é uma doença parasitária provocada pelo Toxoplasma gondii. Este parasita tem 2 tipos de hospedeiro: o hospedeiro intermediário, como o porco, vaca e o Homem, onde se encontra enquistado em vários órgãos tendo um tropismo especial pelo tecido muscular; e um único hospedeiro definitivo , o gato, no qual habita no intestino e liberta oócitos nas fezes do mesmo ou também se pode enquistar noutros órgão por migração errante.


Porque é que o Toxoplasma gondii só tem o gato como hospedeiro definitivo?



A “escolha” do Toxoplasma baseia-se no tropismo para intestino felino, constituindo este um lugar que reúne todas as condições para a diferenciação sexual do toxoplasma intracelularmente e, como tal, poder realizar reprodução sexuada resultando, por esta via, os oócitos que serão libertados para o exterior através das fezes.


Como é que ocorre a infestação com Toxoplasma gondii?


Existem 2 formas de infestação, uma é pela ingestão de carne mal passada ou crua de porco ou vaca que contenham quistos e a outra é pela ingestão dos oócitos libertados nas fezes do gato.


Quais os sinais clínicos de alerta nos gatos?



Os sinais clínicos no gato são por vezes muito inespecíficos pois poderão dar sinais transitórios gastrointestinais ( como vómito, diarreia ) , mas também, devido à sua capacidade migratória e errante para outros órgãos, como músculo, olho, cérebro, vísceras, pode surgir febre, corrimento ocular, alterações respiratórias, letargia, depressão, anorexia, tremores, ataxia, paralesia, icterícia e natos mortos em fêmeas gestantes.


E no Homem, quais os sintomas?


Nos humanos com sistema imunitário competente, normalmente não apresentam qualquer sintomatologia, por vezes a toxoplasmose é confundida com uma simples gripe.


No caso das pessoas com o sistema imunitário comprometido, como os doente de S.I.D.A., pode-se desenvolver uma forma de doença mais grave, já que as defesas estão em baixo.


Se a mulher for infectada durante a gravidez, a mulher pode passar a doença ao feto, desenvolvendo este problemas graves ao nível do sistema nervoso central e ocular.


Qual o período de maior risco para a mulher gestante?



O período de maior risco é o primeiro trimestre da gravidez e, como tal, deve-se realizar o teste antes da gravidez ou o mais rapidamente possível, ou seja, assim que souber que está grávida.


Que teste é realizado à mulher grávida e que respostas posso adquirir com ele?


O teste é um teste de detecção de anticorpos anti-toxoplasma. Existem 2 tipos de anticorpos que serão testados que permitem determinar se a infecção é recente ou antiga: IgM e IgG.


Os IgG estão relacionados com infecções antigas ou passadas, são como anticorpo de memória que registam a passagem do parasita pelo organismo. Através do valor da titulação dos IgG, o seu médico assistente dir-lhe-à mais ou menos se a infecção foi há mais de 6 meses ou menos, sendo que se for há mais de 6/9 meses é quase improvável que seja novamente infectada, pois a infecção não será reactivada durante o período da gravidez.


Os IgM são anticorpos de primeira linha, ou seja são o que estão accionados no presente e como tal poder-se-à dizer que houve contacto recente com o Toxoplasma gondii ou temos infecção, dependendo esta determinação a partir do valor da titulação para IgM.


É através da correlação dos valores de titulação dos IgG e IgM que o seu médico assistente irá determinar há quanto tempo contactou com a doença e se esse contacto é recente ou antigo.


Que teste poderá fazer o meu gato?



Existem 2 testes que poderá realizar em Portugal.


Um dos testes que poderá realizar é através da colheita de amostra de fezes 3 dias consecutivos, conservando-as refrigeradas até à expedição para o laboratório.


Este teste permite determinar se o gato, neste período, está ou não a eliminar oócitos nas fezes. No entanto é muito limitado, pois podemos apanhar uma fase não excretora e o animal estar infectando na mesma e o teste dá negativo. O único resultado que acertado é o positivo, onde vemos oócitos a serem eliminados nas fezes.


O outro teste é muito semelhante ao realizado nas mulheres com a colheita de uma amostra de sangue. No entanto em Portugal, não existe a diferenciação entre IgG e IgM, o que torna o resultado positivo um quebra-cabeças para o veterinário assistente, no entanto baseamo-nos nos valores de titulação para um diagnóstico definitivo.


Segundo os especialistas, em Portugal, a Toxoplasmose tem estado a diminuir na população felina, pois os gatos cada vez mais estão a ser mais gatos de casa e a sair menos à rua, comem ração e não carne crua e estão mais bem vacinados e desparasitados. O que faz com que a maior parte dos resultados cuja titulação de anticorpos anti-toxoplasma em gatos, quando baixa poderá até ser positivo para a mulher, já que se trata de infecções antigas e a excreção nas fezes dos oócitos é muito limitada aos primeiro dias de infecção. Como tal, significa que este gato, que é positivo, tem pouquíssima probabilidade de voltar a eliminar oócitos nas fezes e dificilmente volta a ser novamente infectado.


Já o caso dos gatos negativos, dever-se-à ter cuidados para que não sejam infectados durante o decurso da gravidez.


Que cuidados devo ter com o meu gato seronegativo?



Coisas simples como não dar carne mal passada ou crua e alimentos crus aos gatos, não deixar que eles vão há rua e contactem com gatos errantes e/ou fezes destes, não deixar que o seu gato coma insectos – promovendo o controlo das pragas e mudar a areia todos os dias com luvas ( ou pedir a alguém que a mude por si) lavando com água fervente a caixa da areia ( muito importante, pois os oócitos para serem infectantes precisam de estar no exterior 3/5 dias e são termolábeis), podem fazer a diferença. De referir que é pouco provável que os oócitos fiquem no pêlo dos gato, já que eles fazem a sua limpeza diária muito exaustivamente, logo dificilmente o contacto com o pêlo do gato pode ser considerado de risco elevado, no entanto aconselho sempre a lavagem das mãos após a manipulação do gato.


Que outros conselhos dá a uma mulher grávida que tenha um gato?


- Bom senso e ponderação na decisão a tomar em relação ao seu animal de estimação;


- Fale com o seu médico veterinário assistente sobre o que pode fazer, medidas preventivas e testagens ao seu gato;


- Tirar todas as dúvidas, não deixe nunca de perguntar, esclareça-se bem! A maior parte dos abandonos dos gatos deve-se à má e destorcida informação sobre a Toxoplasmose;


- Lavar bem os alimentos crus ( vegetais, frutas) e manipule-os sempre com luvas;


- Prefira vegetais cozidos aos crus e coma fruta descascada;


- Coma carne sempre bem passada e não manipule nem coma carne crua ou mal passada;


- Lavar sempre bem as mãos sempre antes de comer ou após manipulação de material suspeito;


- Não beber leite sem ser pasteurizado;


- Não beber água que não seja tratada nem de fontes;


- Não faça jardinhagem ou mexa em terra sem luvas.



sexta-feira, agosto 29, 2008

Caso Clínico 21/08 - Ferida com destacamento de pele na cabeça e pescoço dum cão



Apresentou-se à consulta no Centro Veterinário de Estremoz um cão podengo médio, com peso corporal 14 kg, chamado Brados, com uma ferida muito grande que implicava a face lateral e parte do pescoço do cão com destacamento da pele. Por sorte, trata-se de um ferimento ligeiro, pois os músculos encontravam-se intactos sem lacerações, somente a pele e tecido sub-cutâneo sofreram destacamento dos restantes tecidos adjacentes com produção de pouca hemorragia.


Foi desbridado os bordos da feridas e consequente sutura com pontos simples.


Hoje já se viu a sutura, que aparentemente está a evoluir bem, apesar do grande destacamento de pele poder ainda comprometer a boa cicatrização da mesma.

Vou actualizando o caso, postando a evolução do Brados.

Caso Clínico 19/08 - Piómetra fechada numa cadela após injecção abortiva (II)


Esta é a Fofinha veio tirar os pontos da sutura, está a recuperar bem.

Caso Clínico 18/08 - Sarcoma de Sticker numa cadela (III)



Esta é a Princesa na última sessão de quimioterapia, correu tudo bem só falta daqui a 2 semanas ser reavaliada e se tudo tiver a correr bem tem alta.

quinta-feira, agosto 28, 2008

Resultado do Inquérito - 06/08




Em relação à questão " que parasita é este que é tão temido pelas grávidas?", todos os participantes acertaram: trata-se do Toxoplasma gondii.


Muito obrigada pela vossa participação e espero a vossa votação no próximo inquérito.

sexta-feira, agosto 22, 2008

Site da Dra. Addie

Para saber a informação mais actualizada sobre o PIF (peritonite infecciosa felina), aconselho a consulta deste site: www.dr-addie.com.

Existe uma tradução em Português deste site.

quarta-feira, agosto 20, 2008

Vacinação em gatos


A vacinação constituí a melhor arma para o controlo e prevenção de doenças infecciosas. No caso dos felinos existem no mercado vários tipos de vacinas que poderão ser administradas. A escolha da vacina a administrar é feita em conjunto com o veterinário assistente que saberá quais as doenças infecciosas felinas para as quais o seu gato deverá ser vacinado de acordo com a região e a adaptar o esquema que melhor se adequa para cada caso em concreto.

Que vacinas é que recomenda?

Existem 2 vacinas que, na minha opinião, deviam ser administrados em todos os gatos saudáveis : a vacina Trivalente - que protege o gato contra os principais agentes infecciosos responsáveis pelo Sindrome Respiratório Felino ( calicivirus e herpesvirus), bem como contra panleucopenia felina que provoca gastroenterites hemorrágicas muito graves - e a vacina contra o virus da Leucose Felina ou FeLV.


Qual o esquema de vacinação felina que recomenda?

Os gatos podem ser vacinados a partir dos 2 meses de idade, realizando um 2º reforço passado 3 a 4 semanas do 1º reforço efectuado. Após a primo-vacinação a vacina começa a ser administrada anualmente por enquanto, já que há estudos que nos indicam que a imunidade oferecida pelas vacinas de hoje em dia é mais douradoira que um ano, podendo atingir os 3 anos. Como ainda se encontra em discussão a validade imunológica das vacinas, continuo a recomendar a vacinação anual dos gatos.

As vacinas que recomendo são a Trivalente e a Leucose Felina, sendo administradas separadamente quando eles são gatinhos.

A vacina da raiva também pode ser dada nos gatos, sendo em alguns países de caractér obrigatório, podendo ser administrada a partir dos 3 meses.


E nos gatos adultos? Qual o esquema que recomenda?


Nos gatos adultos deve-se realizar o teste de despite de FIV e FeLV sempre antes de serem vacinados, pois só assim podemos adaptar o protocolo ao animal em questão.


Gatos saudáveis com historial de terem sido vacinados podem fazer um reforço único e depois reforços anuais.

Quando não se sabe do historial vacinal de um gato saudável, o melhor é jogar pelo seguro e fazer o mesmo esquema que se aplica aos gatinhos.

Por razões económicas, existem pessoas que só querem fazer a vacina Trivalente porque o seu gato não contacta com outros gatos e está sempre em casa. No entanto, só o facto dos donos o trazerem à clínica para a vacina já estão a expor, indirectamente, o seu gato a vários vírus, incluindo o FeLV. Portanto a vacinação contra a Leucose Felina torna-se muito importante e imprescindível.

Um gato saudável que no teste dê FeLV positivo, não necessita de ser vacinado contra a Leucose Felina, pois em alguma fase da sua vida contactou com o virus e encontra-se naquele momento em equilíbrio com o vírus. Pode ser vacinado mas é uma despesa desnecessária para o dono. Nesta situação administro somente a Trivalente.

O caso muda de figura quando o gato é saudável mas que é positivo ao FIV. Aqui, desaconselho a vacinação contra a FeLV, já que a administração da mesma poderá provocar uma imunossupressão. No entanto a administração da Trivalente é de extrema importância para que o animal não fique doente com alguma destas doenças que poderão surgir secundariamente a uma diminuição do sistema imunitário.

No gato saudável (?) que é FIV e FeLV positivo, procede-se da mesma forma que no caso de um gato FIV positivo.


Que esquema de administração de vacinas em gatos utiliza?



Na vacinação dos gatos utilizo o esquema recomendado pelo A.V.M.A. ( www.avma.org/vafstf ) que sugere:

- A administração das vacinas em gatos deve se feita o mais possível pela via subcutânea e não intra-muscular;

- Utilizar outras vias de administração de vacinas, se possível, sem ser pela via injectável – como por exemplo a intranasal;

- Após a administração das vacinas deve-se realizar por escrito o local onde se deu, lote, marca e qual a valência da vacina;

- Notificar o fornecedor do aparecimento de reacções anómalas

- Administração de vacinas com trivalência simples : Membro Anterior Direito

- Administração de vacinas contra o vírus do FeLV sozinha ou com outras valências: Membro Posterior Esquerdo

- Administração de vacinas contra a raiva ou associada a outras valências: Membro Posterior Direito


Porquê seguir estas recomendações?

Estas recomendações vêm ao encontro da necessidade de diferenciação da valência das vacinas com o aparecimento no local de inoculação das mesmas de fibrosarcomas vacinais. Para além de ter uma componente prática importante na remoção do tumor, já que torna-se muito difícil a extracção do mesmo com boas margens na zona do pescoço ( zona onde ainda alguns veterinários dão vacinas subcutâneas a gatos) , bem como é um tumor muito invasivo a nível muscular.

Aos fibrosarcomas estão associadas as vacinas que contenham as valência FeLV e raiva. No entanto a probabilidade de um gato ficar com fibrosarcoma depois de ter sido vacinado contra o FeLV é muitíssimo mais baixa do que a probabilidade de apanhar FeLV por não estar vacinado. Já para não dizer que é raro a ocorrência de fibrosarcomas vacinais.


Como se distingue uma reacção inflamatória vacinal normal de um fibrosarcoma?



A distinção entre reacção inflamatória no local de inoculação da vacina de um fibrosarcoma é muito importante para que não haja alarmismos desnecessários por parte dos donos.

Por vezes após a vacinação do seu gato poderá desenvolver-se no local de inoculação da vacina um matulozinho que por vezes dói ao toque. É rara, mas pode acontecer, normalmente é uma reacção inflamatória passageira que deverá desaparecer espontaneamente em 3 a 5 dias.

O fibrosarcoma é uma formação dura, infiltrativa, irregular que vai aumentando ao longo do tempo, podendo aparecer vários em outros locais ( metástases ). Persiste mais do que 3 meses, diâmetro maior que 2cm e aumenta de tamanho 1 mês após a administração da vacina.

Como se diagnostica o fibrosarcoma e qual o tratamento?

Para o diagnóstico de fibrosarcoma realiza-se uma biopsia e exame histopatológico.

O seu tratamento passa pela sua excisão/extracção, no entanto como é muito infiltrativo podemos não conseguir removê-lo por completo, sendo as recidivas muito frequentes. A quimioterapia e radioterapia também se podem realizar, mas o prognóstico é tão reservado como o cirúrgico.